2666. A viagem necessária a Santa Teresa

A primeira impressão durante a leitura de 2666, de Roberto Bolaño, foi que este era um romance do nosso tempo, uma narração datada. Existem muitas referências que parecem querer sinalizar que o leitor tem de estar aí, nos finais do século XX. Mas a temporalidade do romance parece-me fechada em si mesma nessa circularidade tempo-espaço que o autor encerrou sobre o ponto magnético da obra: Santa Teresa. É um romance que nos obriga a regressar sempre a essa cidade horrível, como se Santa Teresa fosse um alerta. Os críticos vão lá parar por causa de Archimboldi; Amalfitano por causa da sua vida académica e de um passado negro; Oscar Fate para escrever um artigo sobre um combate de boxe; Archimboldi por causa de Klaus Haas, ou por causa de Lotte, ou por causa de si mesmo. Também o leitor é constantemente guiado para lá, como se Bolaño quisesse fazer-nos lembrar que o que une todas as histórias é esse reduto demoníaco. Creio que é inevitável não sentir um certo repúdio por Santa Teresa. As exaustivas e minuciosas descrições dos assassinatos na parte dos Crimes talvez possa até ser a parte mais desesperante de ler, repetitiva, com demasiados nomes e perdida nesse vórtice virtiginoso da morte e da incompetência. Está claro desde o início que os crimes não existem neste romance para serem esclarecidos; eles estão aí para se nos serem apresentados pelo que eles significam como actos. Na verdade, pouco importa quem assassinou as mulheres. Por vezes cheguei mesmo a pensar que quem as matou foi a humanidade inteira, a passividade e a incompetência (o egoísmo) de toda a humanidade. A grande ironia deste romance é todos estarem ligados entre si pela morte, uma morte alheia, distante, enterrada sob um deserto castanho, mas uma morte comum como só ela é; e ainda, como parte dessa grande ironia, o olhar preverso e distante da escrita quando se aproxima, como se esta fosse um salvamento momentâneo, já que as personagens centrais são indivíduos ligados às letras e quase todos gravitam em torno desse escritor misterioso, senão lúcido, pelo menos letárgico, que é Archimboldi, símbolo supremo da ironia do romance.

JG

Comentário de Evandro Affonso Ferreira

O escritor brasileiro Evandro Affonso Ferreira assina o prefácio ao O Livro das Aproximações.

“O personagem do livro de Guilhoto é a própria palavra. Sensação ad introitum: o autor vai clicando palavras para vivificar frases que fotografam o fazer-livro, o arquitetar-cidade, o elaborar-páginas, o tecer momento – a despeito de seu narrador, debater-se num oceano de dúvidas, por assim dizer, ao querer distinguir as coordenadas do tempo – as questões agostinianas.”

Para ler aqui.

O Livro das Aproximações

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Estreia do escritor português João Guilhoto, O Livro das Aproximações elabora com precisão matemática o sofrimento e o desamparo humanos. As sombras iluminadoras que o autor projeta no silêncio das palavras o assemelham a Kafka, Walser e Musil, em toda a sua consciência da banalidade da vida contraposta às infinitas possibilidades do eterno da literatura. O apuro linguístico e filosófico da narrativa faz suspeitar que o livro já nasce um clássico, impressão reforçada por Evandro Affonso Ferreira para quem “as palavras dele são feitas para durar, não se deformam com as puerilidade do efêmero, não caminham subservientes pari passu com a própria época ou moda”.

The perplexity of Zorba

‘Can you tell me, boss,’ he said, ‘what all these things mean? Who made them all? And why? And, above all why do people die?’

‘I don’t know Zorba,’ I replied, ashamed, as if I had been asked the simplest thing, the most essential thing, and was unable to explain it.

‘Well, all those damn books you read – what good are they? Why do you read them? If they don’t tell you that, what do they tell you?’

‘They tell me about the perplexity of mankind, who can give no answer to the question you’ve just put me, Zorba.’

‘Oh, damn their perplexity!’ he cried, tapping his foot on the ground in exasperation.

Zorba The Greek, Nikos Kazantzakis

Rasim entre ruínas

“Se eu me esquecer de ti, Jerusalém, esqueça-se a minha mão direita da sua destreza.” Salmos

A primeira imagem da Bósnia, para além do verde que predomina a paisagem, foi uma ruína: uma casa queimada pela guerra. Amanhecia e estava nevoeiro. No autocarro onde eu viajava, já desde a Alemanha, ainda sem dormir, seguia também o Rasim, que me disse: “as casas estão aqui, temos de as ver.”

Rasim é muçulmano e nasceu em Escópia, na Macedónia, mas mudou-se para a Bósnia há vários anos. Senti na forma de ele falar do seu país, da Bósnia, da sua história e cultura, um certo orgulho misturado de mágoa. Rasim sentava-se exactamente atrás de mim. Durante a viagem quase toda, conversámos, em inglês, língua que ele domina depois de tantas viagens e trabalhos fora. Pai de três filhas, Rasim trabalha na reparação de interiores e divide o seu tempo entre Sarajevo e Estocolmo. Eu estava cheio de sono mas escutei os seus relatos com atenção. Falou-me de como os bósnios souberam resistir aos sérvios. “Somos boa gente, mas se se metem connosco somos malucos.” Contou-me também como Sarajevo mistura várias fés diferentes de uma forma, segundo ele, harmoniosa: muçulmanos católicos, cristãos ortodoxos e judeus. “Vais-te surpreender, mas não me ouças demasiado”, repetiu ele muitas vezes.

A frase “não me ouças demasiado” foi quase como que abusada por Rasim. E repetiu-a também quando me falou da guerra e criticou os sérvios: “esta é a minha versão da história, e é a verdade, mas não me ouças demasiado. Vê e cria a tua própria opinião.”

IMG_6141Apesar do sono, estava interessado em ouvi-lo. Dava-me explicações dos locais por onde passávamos com precisão e ligava-os com experiências do passado e com a guerra. “Aqui era território controlado pelos sérvios”, “aqui resistimos”, “somos um povo que nunca foi o primeiro a atacar”. A certo momento passámos no centro de uma vila onde vi lado a lado um cemitério ortodoxo e um cemitério muçulmano, como túmulos de dois irmãos enterrados juntos. “Isto é algo que não vês em muitos locais”, disse Rasim. Na paisagem surgiam vilas, casas castanhas, igrejas, mesquitas, com suas cruzes ou minaretes orgulhosamente exibidos, numa paisagem europeia pouco comum.

Passámos por Zenica Bilimopolge e Rasim contou-me que nessa cidade existe um estádio de futebol mais pequeno do que o estádio nacional em Sarajevo. “Mas é no pequeno que fazemos alguns jogos importantes, precisamente por ser pequeno”. Como é pequeno, contava, os adeptos estão mais próximos do campo e dos jogadores e podem tanto apoiar a sua equipa de forma mais fervorosa, como importunar a equipa adversária mais facilmente. Essa proximidade, à qual os bósnios pareciam dar mais importância, podia ser um exemplo dessa força e resistência do povo bósnio de que Rasim me falou. Depois, acerca da guerra, ainda me disse: “não fales da guerra com as pessoas. Muita gente perdeu assim as suas famílias”.

“Chegam aqui, destroem as nossas casas, matam-nos e dizem que é a terra deles: é frustrante”. Neste país as marcas da guerra ainda não foram escondidas, e mesmo que as escondam das fachadas dos edifícios elas ficam. Existe essa dualidade de sentimentos nos povos que passaram por uma guerra relativamente recente: por um lado quer-se esquecer os horrores vividos, mas por outro quer-se recordar desses mesmos horrores. Creio que a fase de esquecimento e recordação da guerra recente pode ser realizada por duas gerações diferentes. Pelo menos foi assim na Alemanha, depois da Segunda Guerra Mundial: a geração que viu a guerra quis fazer um novo país, escondendo ao máximo os vestígios da guerra e a geração depois dessa, nascida no pós-guerra, tentou criar formas de não esquecer a guerra. Quem sofre quer, de certa forma, esquecer, embora a impossibilidade desse esquecimento faça ainda aumentar mais a necessidade de o recordar.

Na Bósnia ainda se mantém uma imagem de guerra, nítida e viva, mesmo em Sarajevo, onde junto de um prédio moderno restam ruínas das bombas ou prédios com buracos de balas nas paredes. Esta memória viva da guerra parece-me quase uma fantasia, uma realidade tão inócua, próxima e ao mesmo tempo perdida na infinidade morta da história, que me sinto realmente num local de uma aura distinta de qualquer outro país europeu. Na Bósnia não me sinto nem no início, nem no final do tempo e da geografia, mas no meio.

Rasim foi o meu cartão de entrada na Bósnia e depois, deitado na minha cama na pousada, no centro de Sarajevo, esperando a chegada do António, amigo e futuro companheiro de viagem, e depois de ter finalmente dormido um pouco, decidi começar a escrever o diário desta curta visita aos Balcãs.

JG