Comentário de Evandro Affonso Ferreira

O escritor brasileiro Evandro Affonso Ferreira assina o prefácio ao O Livro das Aproximações.

“O personagem do livro de Guilhoto é a própria palavra. Sensação ad introitum: o autor vai clicando palavras para vivificar frases que fotografam o fazer-livro, o arquitetar-cidade, o elaborar-páginas, o tecer momento – a despeito de seu narrador, debater-se num oceano de dúvidas, por assim dizer, ao querer distinguir as coordenadas do tempo – as questões agostinianas.”

Para ler aqui.

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Juarroz: ¿Cómo amar lo imperfecto?

¿Cómo amar lo imperfecto,
si escuchamos a través de las cosas
cómo nos llama lo perfecto?

¿Cómo alcanzar a seguir
en la caída o el fracaso de las cosas
la huella de lo que no cae ni fracasa?

Quizá debamos aprender que lo imperfecto
es otra forma de la perfección:
la forma que la perfección asume
para poder ser amada.

Roberto Juarroz

Proust (1)

“Os que produzem obras geniais não são os que vivem no meio mais delicado, os que têm a conversa mais brilhante e a cultura mais extensa, mas os que tiveram o poder de, parando de repente de viver para si mesmos, tornar a sua personalidade semelhante a um espelho, de tal maneira que a sua vida, por muito medíocre que, por outro lado, pudesse ser mundamente e até, em certo sentido, intelectualmente falando, nele se reflicta, já que o génio consiste no poder reflector e não na sua qualidade intrínseca do espectáculo reflectido.”

À Sombra das Raparigas em Flor, Marcel Proust

Não se pode falar do deserto…

(fragmento)

Não se pode falar do deserto como de uma paisagem, pois ele é, apesar de sua variedade, ausência de paisagem.

Essa ausência concede a ele sua realidade.

Não se pode falar do deserto como de um lugar; pois ele é, também, um não lugar; o não-lugar de um lugar ou o lugar de um não-lugar.

Não se pode pretender que o deserto seja uma distância, porque ele é, ao mesmo tempo, real distância e não-distância absoluta por causa de sua ausência de marcas. Ele tem, como limites, os quatro horizontes, sendo o que os liga e os separa. Ele é sua própria separação onde ele se torna lugar aberto; abertura do lugar.

Não se pode pretender que o deserto seja o vazio, o nada. Não se pode, tampouco, pretender que ele seja o término, uma vez que ele é, igualmente, o começo.

Edmond Jabès (tradução de Caio Meira)

Um zero à esquerda

Diz o irmão Johann a Jakob:

«Tu és agora um zero à esquerda, querido irmão. Mas quando somos jovens devemos ser um zero à esquerda, pois não há nada de mais pernicioso do que ser importante quando ainda se é demasiado cedo. É claro: és importante para ti mesmo. Bravo. Excelente. Mas no mundo ainda não és nada, e isso é também excelente. Continuo a achar que não entendes bem o que digo, porque se realmente entendesses…» «Seria uma pessoa terrível», rematei eu. Rimos de novo.

Jakob von Gunten, Robert Walser

Dos ossos

O homem, o nascido da terra: como ele caminha, orgulhoso.
Mas não te tornes demasiado grande porque os «deuses gostam
de baixar o que se eleva».
Da cultura os Mistérios exigem-te apenas a mão direita limpa,
que não tenhas morto;
que saibas grego se és grego, que saibas a língua da tua mãe, se
és filho.
As rochas escondem crianças;
As almas andam no cortejo do ar: procuram carne: mães com força
para as mostrar, para as exibir ao sol.
Não te eleves: o céu é demasiado alto; lá em cima apenas o que
não consegue cair.

1, Gonçalo M. Tavares

Esperanças de um homem no contexto do seu tempo

“O indivíduo pode alimentar toda a espécie de objectivos, finalidades, esperanças e perspectivas, que lhe servem de impulso a ambições e feitos mais elevados. No entanto, quando ao elemento sobre-individual que o rodeia, nomeadamente ao próprio tempo, não se colocam esperanças ou perspectivas, apesar de todo o dinamismo exterior que possa reinar, quando o próprio tempo se lhe apresenta como desalentado, sem sentido e sem norte, respondendo à questão do sentido último das coisas, de um sentido sobre-individual e absoluto de toda a ambição e de todo o feito – questão que é, de facto, colocada, quer consciente quer inconscientemente –, com um enorme silêncio, torna-se, então, quase inevitável que se faça sentir um certo efeito letárgico precisamente sobre a natureza humana mais recta, um efeito que não atingirá somente a dimensão psíquica e moral do indivíduo, mas que afectará igualmente o seu lado mais físico e orgânico. Para que um indivíduo se disponha a realizar uma tarefa de peso, para lá dos limites do absolutamente necessário, sem que a sua época forneça uma resposta satisfatória à questão da finalidade, é fundamental viver em solidão e independência morais – o que comporta algo de heróico e raramente sucede – ou ser dotado de uma vitalidade absolutamente robusta.”

Montanha Mágica, Thomas Mann