O guarda-chuva

És forçado a abrir o guarda-chuva. Sim, és forçado. Podes não o abrir, claro. Mas também podes não te curar da doença que poderás apanhar, uma daquelas gripes virais. Sim, e depois morrerás. Portanto, o melhor é abrires o guarda-chuva. Repara que a chuva não te perdoa. Já alguma vez olhaste bem para o céu e estendeste o teu olhar até se perder no horizonte? Não, claro, estás enclaustrado entre dois blocos de betão durante a maior parte dos teus dias. Pisas alcatrão e mármore todos os dias, quando não estás sobre o teu soalho do 10º andar, por cima de tantos outros, suspenso por finas tábuas de madeira lustradas, por vezes sozinho, em local tão frágil. Não te apercebes disso? E depois a chuva. Estás dentro de casa e sentes-te um senhor do teu pequeno palácio. Quando começas a ouvir o ruído monótono da chuva, abres uma garrafa de vinho e pegas num livro de poesia e começas a contemplar. Ficas ali, uma eternidade, parece-te ser uma eternidade, a contemplar aquela maravilha da natureza. Tu, um homem da técnica, tão sábio, tão ateu, tão mecânico, tão rápido, tão eficaz. Tu, um protótipo dos deuses, como te sentes, senhor de ti, fechado em casa, sozinho, a ler poesia e a beber vinho, ouvindo a chuva cair. Que lassidão! Dizes até que aquilo é belo. É nesses momentos em que não estás rodeado por mais ninguém que te sentes pequeno. Também é nesses momentos que te apercebes do sentido de verdade. A chuva troa uma música que os teus ouvidos recolhem, uma música que te transporta, sim porque a música transporta, para um lugar divino. Sentes-te pequeno perante tamanha imensidão. Apetece-te rezar, mas não o fazes. Abres antes o guarda-chuva. Sim, é isso, tu abres o guarda-chuva. Ainda estás dentro de casa e abres o guarda-chuva. Estás ali, na tua sala, com o teu vinho e o teu livro de poesia, a ouvir a chuva cair, sorridente, de guarda-chuva aberto. Encolhes-te também. Estás visivelmente encolhido, à espera talvez que a água do céu te rompa o betão que te resguarda. Por vezes fechas os olhos e ficas só a sentir, esqueces a poesia. Não percebes a poesia naqueles momentos em que te sentes ligado a um espaço que não te pertence. Sim, de repente, sentes que aquele espaço não te pertence. Mas continuas a beber o vinho e continuas com o guarda-chuva aberto. A chuva não pára e ficas assim muitos dias, sozinho, com o vinho, o livro de poesia que não compreendes, e a chuva. Nunca fechas o guarda-chuva, porque eu sei que és prudente. Estás sossegado, sem medo, apenas apreensivo, claro. És coerente para contigo próprio, utilizas os objectos que te estão mais à mão e que te servem de bom modo. Ali ficas, até a chuva passar. Mas ela nunca passa. E tu sabes que ela nunca irá passar. Tu sabes, porque eu sei que tu sabes, que desta vez a chuva é para sempre. E tu continuas prudente, com o teu guarda-chuva aberto, o teu vinho – que também não acaba – e o teu livro de poesia indecifrável. Assim, sozinho, ouvindo, sentindo, só tu, encafuado dentro de casa, como se o mundo ao girar te transportasse num esquife. Segues, vais, e voltas, sempre a chover. Não feches o guarda-chuva. Nunca feches o guarda-chuva.

João Guilhoto

Publicado na revista LER Junho 2012

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