A errância de Walser

Robert Walser parece escrever para corresponder a um ímpeto da morte. Sobreviver para escrever, escrever para sobreviver. As suas narrativas reflectem uma necessidade de se desviar da vida, não com niilismo, mas respirando calmamente um ar poluído. A leitura de Robert Walser é como uma tentativa de sair sofregamente de um local fechado, esbracejando com uma força indiferente e leve contra a pressão das paredes de um mundo que se encerra gradualmente sobre nós. Walser apercebe-se da nossa condição de errantes. Sorri disso, deambulando no meio da profusão, para depois desaparecer longe. Um dia estaremos sozinhos, caminhando, sem sair do mesmo lugar, ou talvez regressando, e depois cairemos sobre a neve fria que não sentimos. Encontram-nos crianças, que não compreendem, que ainda não compreendem.

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Um zero à esquerda

Diz o irmão Johann a Jakob:

«Tu és agora um zero à esquerda, querido irmão. Mas quando somos jovens devemos ser um zero à esquerda, pois não há nada de mais pernicioso do que ser importante quando ainda se é demasiado cedo. É claro: és importante para ti mesmo. Bravo. Excelente. Mas no mundo ainda não és nada, e isso é também excelente. Continuo a achar que não entendes bem o que digo, porque se realmente entendesses…» «Seria uma pessoa terrível», rematei eu. Rimos de novo.

Jakob von Gunten, Robert Walser

Dos ossos

O homem, o nascido da terra: como ele caminha, orgulhoso.
Mas não te tornes demasiado grande porque os «deuses gostam
de baixar o que se eleva».
Da cultura os Mistérios exigem-te apenas a mão direita limpa,
que não tenhas morto;
que saibas grego se és grego, que saibas a língua da tua mãe, se
és filho.
As rochas escondem crianças;
As almas andam no cortejo do ar: procuram carne: mães com força
para as mostrar, para as exibir ao sol.
Não te eleves: o céu é demasiado alto; lá em cima apenas o que
não consegue cair.

1, Gonçalo M. Tavares

Esperanças de um homem no contexto do seu tempo

“O indivíduo pode alimentar toda a espécie de objectivos, finalidades, esperanças e perspectivas, que lhe servem de impulso a ambições e feitos mais elevados. No entanto, quando ao elemento sobre-individual que o rodeia, nomeadamente ao próprio tempo, não se colocam esperanças ou perspectivas, apesar de todo o dinamismo exterior que possa reinar, quando o próprio tempo se lhe apresenta como desalentado, sem sentido e sem norte, respondendo à questão do sentido último das coisas, de um sentido sobre-individual e absoluto de toda a ambição e de todo o feito – questão que é, de facto, colocada, quer consciente quer inconscientemente –, com um enorme silêncio, torna-se, então, quase inevitável que se faça sentir um certo efeito letárgico precisamente sobre a natureza humana mais recta, um efeito que não atingirá somente a dimensão psíquica e moral do indivíduo, mas que afectará igualmente o seu lado mais físico e orgânico. Para que um indivíduo se disponha a realizar uma tarefa de peso, para lá dos limites do absolutamente necessário, sem que a sua época forneça uma resposta satisfatória à questão da finalidade, é fundamental viver em solidão e independência morais – o que comporta algo de heróico e raramente sucede – ou ser dotado de uma vitalidade absolutamente robusta.”

Montanha Mágica, Thomas Mann

Thomas Mann e a morte

A história “nem longa nem curta, apenas hermética” de Hans Castorp na montanha é a história sobre o sentimento da morte. Todos os dias são regulares. O Presente repete-se na eternidade de um só dia. O corpo  é um objecto frágil, como também é o livro. As mãos matam o livro a cada página virada e o corpo aproxima-se da morte, como o livro se aproxima do fim. Existe tédio nessa “permanência” do tempo. Cada página virada é ao mesmo tempo a unidade de todas as páginas viradas. O final é previsível, apesar de ambíguo. Sim, é uma contradição, mas pensem lá bem se não é assim.

Musil (3) da ambiguidade a Citera

A duplicidade da vida – aquela dicotomia que nos parece inevitável entre dois aspectos que são o oposto um do outro, ao mesmo tempo indissociáveis – torna insuportável a própria vida para “seres pensantes”, defendeu Musil na terceira parte da sua obra-prima O Homem sem Qualidades.

“Esta duplicidade liga todo o progresso a retrocesso, toda a força a uma fraqueza, não concede a ninguém um privilégio sem o retirar a outro, não põe em ordem uma complicação sem gerar nova desordem, (…).”

Diz ainda Musil que todas as explicações que surgem para isso – e elas saem da cabeça desses “seres pensantes” – estão mais ligadas ao temperamento de cada um, ou seja, às paixões e à forma como emocionalmente é possível gerir essa ambiguidade dentro de nós, do que a uma “tarefa objectiva e respeitável da razão.”

“Se é verdade que o mundo não foi criado para corresponder às exigências humanas, não é menos verdade que os conceitos humanos foram criados para corresponder ao mundo.”

E apesar de a história do mundo não ser atribuída aos medianos, mas aos que foram atirados para um dos extremos desta ambiguidade, é a mediania responsável por aceitar e fazer que a humanidade persista. São também os medianos que lucram com o progresso movido pelas paixões desses “génios” e extremistas.

Musil fala de uma média que é possível fazer à humanidade. Uma média que a mim me deixa perplexo, porque cada vez mais tenho a percepção de que a humanidade caminha como uma gigantesca mancha indiferente, rumo a uma qualquer barreira, a um qualquer porto.

Rumará até Citera, a ilha da felicidade? É para lá que ruma a nossa ambiguidade?

Musil

Musil fala da parte imortal do ser humano que transparece através da mortal. Ou seja, quando o amor, que é o que parece existir de mais belo, elevado e bom no ser humano, brilha através do nosso corpo insignificante.

Musil (1)

O homem sem qualidades coloca as personagens como efígies, desprovidas de roupa, de crânio aberto, no meio de um espaço vazio e universal, sujeitas a uma profunda análise, partilhada com o leitor numa forma de inteligência superior.

Sobre a Internet

A Internet é um meio soberano para lançar a nossa individualidade num campo de onde podemos ser observados na nossa maior inteligência ou destreza de personalidade. A personalidade (porque o termo alma está em desuso) funciona por vezes como uma arma legítima no campo democrático das ideias. Ela valida tudo e surge em forma de imagens estáticas e palavras flutuantes.