Esperanças de um homem no contexto do seu tempo

“O indivíduo pode alimentar toda a espécie de objectivos, finalidades, esperanças e perspectivas, que lhe servem de impulso a ambições e feitos mais elevados. No entanto, quando ao elemento sobre-individual que o rodeia, nomeadamente ao próprio tempo, não se colocam esperanças ou perspectivas, apesar de todo o dinamismo exterior que possa reinar, quando o próprio tempo se lhe apresenta como desalentado, sem sentido e sem norte, respondendo à questão do sentido último das coisas, de um sentido sobre-individual e absoluto de toda a ambição e de todo o feito – questão que é, de facto, colocada, quer consciente quer inconscientemente –, com um enorme silêncio, torna-se, então, quase inevitável que se faça sentir um certo efeito letárgico precisamente sobre a natureza humana mais recta, um efeito que não atingirá somente a dimensão psíquica e moral do indivíduo, mas que afectará igualmente o seu lado mais físico e orgânico. Para que um indivíduo se disponha a realizar uma tarefa de peso, para lá dos limites do absolutamente necessário, sem que a sua época forneça uma resposta satisfatória à questão da finalidade, é fundamental viver em solidão e independência morais – o que comporta algo de heróico e raramente sucede – ou ser dotado de uma vitalidade absolutamente robusta.”

Montanha Mágica, Thomas Mann

Thomas Mann e a morte

A história “nem longa nem curta, apenas hermética” de Hans Castorp na montanha é a história sobre o sentimento da morte. Todos os dias são regulares. O Presente repete-se na eternidade de um só dia. O corpo  é um objecto frágil, como também é o livro. As mãos matam o livro a cada página virada e o corpo aproxima-se da morte, como o livro se aproxima do fim. Existe tédio nessa “permanência” do tempo. Cada página virada é ao mesmo tempo a unidade de todas as páginas viradas. O final é previsível, apesar de ambíguo. Sim, é uma contradição, mas pensem lá bem se não é assim.