Proust (2) duas ideias

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Ler Proust é, através desse acasalamento do corpo com o livro (aparente negação da vida lá fora), uma das mais elevadas honras à vontade de captar a vida. Mas como a vida, digamos assim, não se pode captar na sua essência, pois os momentos que vivemos no seu Presente, ao mesmo tempo nos escapam, só a vida no Passado, e tudo aquilo de que podemos recordar desse Passado tem a potencialidade de ser cristalizado. No entanto, eis o que sucede em Proust para mim: a memória, com que o autor luta, é também a nossa própria luta no romance: chegamos a um ponto da leitura em que temos de reler passagens que nos confundiam, ou por atribuirmos certas frases a personagens que eram afinal de outras, ou por confundirmos cronologicamente alguns eventos. Mas esse parece-me ser o jogo de Proust: dar-nos um texto que se assemelha em tudo à própria incapacidade de assimilação dos momentos, a essa melancolia e deleite estético de que podemos desfrutar dos nossos dias, e que por vezes nos esquecemos.

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Outro aspecto em Proust é, para mim, a felicidade e a tristeza decorrente da leitura. Mas a tristeza é apenas uma consequência da minha própria inveja. Sinto-me incapacitado de escrever. Há autores cuja narrativa inspiram, por se nos assemelharem demasiado a nós. Existem outros em que, em contrapartida, a sua narrativa nos parece inalcançável, mas ao mesmo tempo nos motiva, não só a continuar a acreditar no nosso talento (por isso ser uma coisa possível), como a oferecer-nos um prazer associado à leitura, do qual somos muitas vezes afastados em alguns livros. Em Proust sinto essa felicidade na leitura mas a tristeza de, durante estes meses com Marcel, não conseguir produzir.

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Proust (1)

“Os que produzem obras geniais não são os que vivem no meio mais delicado, os que têm a conversa mais brilhante e a cultura mais extensa, mas os que tiveram o poder de, parando de repente de viver para si mesmos, tornar a sua personalidade semelhante a um espelho, de tal maneira que a sua vida, por muito medíocre que, por outro lado, pudesse ser mundamente e até, em certo sentido, intelectualmente falando, nele se reflicta, já que o génio consiste no poder reflector e não na sua qualidade intrínseca do espectáculo reflectido.”

À Sombra das Raparigas em Flor, Marcel Proust