Nota sobre Los Adioses, de Onetti

É correcto dizer, como se pronunciou Wolfgang Luchting (ou outros) que fui enganado (com muito gosto). A ilusão da leitura tem, no entanto, diferentes níveis. Durante a leitura de um romance tradicional, estamos conscientes da ilusão em que caímos: como em qualquer outro livro, ou outra história. E em Onetti também pois também este nome se materializa em palavras e ele também ocupa um lugar nas prateleiras. Mas quando conseguimos ser enganados na própria ilusão, então, para muitos, na vida fora das páginas, somos vítimas do embaraço de termos sido traídos e culpamo-nos por estupidez ou culpamos o forte que com suposta inteligência mas sem ética nos enganou. Em Los Adioses, somos culpados apenas por acreditarmos demasiado no autor, por este, sem nos explicar, nos arrasta em todas as suas palavras para dentro de nós mesmos. E depois apercebo-me como fui ridículo em ter acreditado no ponto de vista do vendedor da loja, e em como foi fácil manipular-me, e em como no meio de toda essa inocência vilipendiada, o reafirmo: fui engando (com muito gosto).

Separados da felicidade do absurdo

“Aqui estamos, entretanto. A vida não acabou, há possibilidades de esquecimento, podemos reconhecer o cheiro do ar nas manhãs, podemos passar o dia em revista, adormecer ignorando os antecedentes de cada recordação e sorrir quando despertamos, recém-separados da felicidade do absurdo.”

A Vida Breve, Juan Carlos Onetti