Irão: uma primeira apreciação

É inevitável ao viajar para o Irão, ou durante a preparação dessa viagem, não nos livramos de ouvir algumas palavras reprovadoras ou de espanto. A imaginação é intumescida pelas imagens. As palavras que nos enchem os ouvidos, provavelmente não apenas no contexto actual do enriquecimento de urânio de Ahmadinejad, mas desde a revolução islâmica de 1979, é a de que o Irão é um local conflituoso. E esta generalização está, claro, ao mesmo tempo próxima e longe da realidade. Mas a realidade faz com essas imagens uma destilação dos extremos e materializa o acontecimento. O Irão pode então ser muitas palavras em páginas de jornal, política e petrólio. Mas o Irão é também um país para onde eu um dia viajei.

Lembro-me que no Irão até os locais me perguntavam: “E porquê o Irão? Porque não viajar para outro país?”. A mesma pergunta que me faziam no Ocidente. Respondo interrogativamente: “E porque não?” O que é certo é que essas perguntas desconfiadas me pareceram sempre um disfarce da alegria que sentiam. Poderá parecer exagerado dizê-lo, mas eu senti uma alegria imensa, por vezes invasiva, por parte dos iranianos com que me cruzei, pelo facto de eu ser apenas um turista de visita ao país.

Atraía-me a literatura iraniana. Li Saadi, Hafez, Attar, Hedayat. Ouvi Tar e Setar. Desajava sair da Europa: aliviar um pouco a mente e afastar os meus pés da entrada das igrejas. Nas mesquitas não há representações humanas. Isso aliviou-me. Viajei, no entanto, não à procura de me fascinar com belezas arquitectónicas, mas também não sei do que fui à procura. Ocorreu apenas um impulso especulativo, nada de novo: o mesmo interesse que fascina uns e outros por outros destinos.

Foi uma viagem humana: o fotógrafo Aman que me hospedou três noites em Teerão, e a sua família que me recebeu em Rasht. Alireza que me abriu as portas de sua casa em Shiraz, a cidade onde dormem os poetas. E Hassan que percorreu comigo as ruas da bela Esfahan, onde a praça Imam já foi outrora chamada de “o centro do mundo”. Nas suas mãos deixei “O Ensaio sobre a cegueira”. Conheci Aroosha que me disse que no Irão também se dança. E Yeganeh, a empregada de um restaurante fast-food, que meteu na cabeça que queria casar comigo.

Viajava muitas vezes de noite, dentro de autocarros adornados de tapetes persas e com jantar gratuito.

Vi três vezes o sol nascer por trás de montanhas sem árvores.

João Guilhoto

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