Musil (3) da ambiguidade a Citera

A duplicidade da vida – aquela dicotomia que nos parece inevitável entre dois aspectos que são o oposto um do outro, ao mesmo tempo indissociáveis – torna insuportável a própria vida para „seres pensantes“, defendeu Musil na terceira parte da sua obra-prima O Homem sem Qualidades.

„Esta duplicidade liga todo o progresso a retrocesso, toda a força a uma fraqueza, não concede a ninguém um privilégio sem o retirar a outro, não põe em ordem uma complicação sem gerar nova desordem, (…).“

Diz ainda Musil que todas as explicações que surgem para isso – e elas saem da cabeça desses „seres pensantes“ – estão mais ligadas ao temperamento de cada um, ou seja, às paixões e à forma como emocionalmente é possível gerir essa ambiguidade dentro de nós, do que a uma „tarefa objectiva e respeitável da razão.“

„Se é verdade que o mundo não foi criado para corresponder às exigências humanas, não é menos verdade que os conceitos humanos foram criados para corresponder ao mundo.“

E apesar de a história do mundo não ser atribuída aos medianos, mas aos que foram atirados para um dos extremos desta ambiguidade, é a mediania responsável por aceitar e fazer que a humanidade persista. São também os medianos que lucram com o progresso movido pelas paixões desses „génios“ e extremistas.

Musil fala de uma média que é possível fazer à humanidade. Uma média que a mim me deixa perplexo, porque cada vez mais tenho a percepção de que a humanidade caminha como uma gigantesca mancha indiferente, rumo a uma qualquer barreira, a um qualquer porto.

Rumará até Citera, a ilha da felicidade? É para lá que ruma a nossa ambiguidade?

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